Diferenciação de Enfermeiros em Anestesia: Perspetivas e sua Relação com o Engagement no Trabalho
Résumé
Objetivo: Explorar as perceções dos enfermeiros perioperatórios sobre a diferenciação profissional na área da anestesia e a sua relação com os níveis de engagement no trabalho.
Métodos: Estudo de métodos mistos, convergente paralelo com recolha de dados qualitativos (entrevista semi-estruturada) e quantitativos (questionário online) em simultâneo, seguida de análise de dados em separado e posteriormente, integração de resultados. Participaram 32 enfermeiros perioperatórios a exercer funções no bloco operatório de hospitais no norte de Portugal. A amostra foi obtida pela técnica snowball. Os dados qualitativos foram analisados pelo método de análise de conteúdo segundo Bardin (2016). Os dados quantitativos foram analisados no IBM SPSS Statistics®, versão 28.0 com técnicas da estatística descritiva, incluindo testes t para amostras independentes, e regressão linear múltipla considerando um nível de significância de 5%. Na fase final, recorreu-se à análise integrativa de convergência, divergência e complementaridade para interpretar os dados em conjunto. O estudo obteve aprovação da Comissão de Ética do Instituto Politécnico de Saúde do Norte (IPSN) (Parecer n.º 23/CE-IPSN/2025).
Resultados: Os participantes reconheceram a diferenciação funcional na anestesia como favorecedora de maior estabilidade no desempenho, consolidação de competências e organização do trabalho, referindo impacto na segurança da pessoa em situação perioperatória. A prática exclusiva na anestesia foi descrita como potenciadora de envolvimento e continuidade no raciocínio clínico, enquanto a polivalência funcional foi associada a maior variabilidade de tarefas, fragmentação da atividade e fadiga emocional. No plano quantitativo, os enfermeiros com prática exclusiva na anestesia apresentaram valores superiores de engagement (M = 45,27; DP = 6,15), em comparação com os enfermeiros com funções multitarefa (M = 38,37; DP = 10,93), com diferença estatisticamente significativa (p = 0,038). A experiência profissional em bloco operatório revelou-se um preditor significativo do engagement (p = 0,042), sugerindo que a continuidade de prática pode estar relacionada com níveis mais consistentes de envolvimento laboral.
Conclusões: Os resultados indicam que a organização das funções no bloco operatório influencia a forma como os enfermeiros vivenciam o seu trabalho e o engagement associado ao mesmo. A continuidade funcional na área da anestesia pode favorecer maior envolvimento, significado profissional e estabilidade emocional no desempenho, enquanto a rotatividade de funções pode associar-se a dispersão de foco, desgaste emocional e menor consistência na experiência de pertença à equipa. Estes achados realçam a importância de modelos organizacionais que promovam estabilidade funcional, clarificação de papéis e formação especializada, contribuindo para o bem-estar profissional e para a segurança da pessoa em contexto perioperatório. Estudos futuros, com amostras mais alargadas e em múltiplos contextos, serão relevantes para aprofundar estas relações e avaliar o impacto de diferentes configurações organizacionais nos resultados clínicos e indicadores de qualidade.

