Versão em Português Europeu do questionário Urinary Stones and Intervention Quality of Life (USIQoL) para pessoas com litíase urinária: tradução, validade de conteúdo, validade de construto e fiabilidade
Résumé
Antecedentes: A litíase urinária constitui uma patologia prevalente, frequentemente associada a prejuízos significativos na qualidade de vida, sendo o seu impacto global ainda pouco explorado. Embora instrumentos de avaliação baseados em resultados relatados pelos doentes (PROMs), como o Urinary Stones and Interventions Quality of Life (USIQoL), apresentem relevância clínica e científica, até ao momento não se dispunha de uma versão validada em português europeu.
Objetivos: Traduzir e avaliar a validade de conteúdo e de construto, bem como a fiabilidade do USIQoL em português europeu, de acordo com as orientações COSMIN.
Métodos: Foi efetuada a tradução do USIQoL e um estudo qualitativo (painel de especialistas e população-alvo de doentes) para avaliar a validade do conteúdo, seguido de um estudo prospetivo para avaliar a validade do construto (teste de hipóteses) e a fiabilidade (consistência interna) numa amostra de doentes adultos com urolitíase de um departamento de urologia de um hospital no norte de Portugal.
O USIQoL integra duas subescalas - Doença de Cálculos Urinários (USIQoL-DCU) e Tratamento (USIQoL-T) - cada uma com 15 itens distribuídos por três domínios: Dor e Saúde Física (DSF), Saúde Psicossocial (SPS) e Âmbito Laboral (AL). Recorreu-se a testes não paramétricos para avaliar as hipóteses pré-definidas uma vez que os dados não tinham uma distribuição normal. A consistência interna foi avaliada pelo alfa de Cronbach.
Resultados: O processo de tradução seguiu os pressupostos metodológicos, tendo sido rigorosamente documentado em todas as etapas para garantir a validade de conteúdo. No estudo prospetivo, foram incluídos 100 doentes com litíase urinária (média de idade = 55,9 anos ± 13,3; 51% do sexo masculino). A idade avançada associou-se a pontuações mais baixas no domínio Âmbito Laboral de ambas subescalas (p<0,001). Os participantes do sexo feminino apresentaram pontuações mais elevadas do que os do sexo masculino nos domínios DSF e SPS do USIQoL-DCU (p=0,044; p=0,027) e do USIQoL-T (p=0,004; p=0,027). Doentes com história prévia de cálculos urinários apresentaram pontuações mais elevadas nos domínios DSF (p=0,004) e SPS (p=0,025) do USIQoL-T. Os participantes que relataram sintomas apresentaram pontuações mais elevadas nos domínios DSF e SPS (USIQoL-DCU: p=0,004; p=0,044). Doentes com stent in situ apresentaram uma pontuação total mais elevada no domínio SPS (USIQoL-T), em comparação com doentes sem stent e doentes com stent/NPC (p=0,036). Em três domínios, verificou-se que a pontuação total diminuiu com significado estatístico (p<0,001) após o tratamento, comparativamente à avaliação prévia ao mesmo. A versão em português europeu do USIQoL apresentou boa consistência interna [USIQoL-DCU α=0,78 (domínios=0,66–0,94); USIQoL-T α=0,87 (domínios=0,68–0,98)].
Conclusão: De forma geral, o USIQoL - versão português europeu demonstrou boa validade de conteúdo e de construto, bem como boa consistência interna, apoiando a sua utilização como um Patient-Reported Outcome Measure (PROM) fiável e culturalmente adequado para pessoas portuguesas com litíase urinária. Outras avaliações desta versão noutros contextos clínicos e com amostras de maior dimensão tornam-se necessárias e assumem-se o objeto de estudos futuros.

